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Histórias de corredor

Espaço para os colegas corredores contarem suas histórias…e como temos histórias, não é mesmo???

Mande um texto inusitado de uma experiência que você tenha passado num treino, corrida, enfim, um texto bacana feito por você! Ah, não esqueça da foto, tá? Mande para lumil@uol.com.br.

História de uma corredora

Por Henrique Arrais*

Já tem um tempinho que essa nova blogueira, que é minha colega de trabalho, aluna e amiga me pede para fazer um relato para essa seção do blog, o Histórias de Corredor. Realmente, histórias não faltam – pena eu não ser bom narrador -, sejam elas engraçadas, tristes, emocionantes, chatas, gloriosas ou até mesmo banais. Ainda mais porque convivo diariamente com muitos corredores e compartilho com eles muitas de suas histórias.

Mas já que estamos no blog da Lu, é da Lu que vamos falar. Lembro do primeiro dia em que essa blogueira apareceu para treinar conosco. E confesso, não fiquei muito animado, não. Até aquele dia, a imagem que eu e muitos outros tínhamos dela, era de uma pessoa séria e carrancuda. E num ambiente tão descontraído como o nosso grupo de corrida (SEFAZ RUNNERS), não sabia como ela se portaria.

Agora, passados quase um ano desse começo, posso dizer a vocês, se tem uma pessoa que me surpreendeu, essa pessoa é a Lu. Pelo bom humor, o jeito despojado, liderança e principalmente pela dedicação e força de vontade. E não demorei muito a perceber isso. Tanto que umas duas semanas depois que ela começou a treinar, a chamei para participar da Volta à Ilha de Florianópolis do ano seguinte, pois saberia que até lá ela estaria em ótimas condições.

Tudo isso para começar aqui a minha história (desculpem o texto muito longo). Como treinador e líder da equipe SEFAZ RUNNERS na Volta Ilha de 2012, eu precisava distribuir os trechos para cada corredor. E nessa última edição da corrida, adicionaram um novo percurso, que conforme a própria organização era classificado como muito, muito difícil.

Era o segundo mais difícil dos 19 listados. A altimetria era insana, e para piorar havia uma trilha muito fechada. Mas não tive dúvidas, coloquei a Lu para encarar o monstro. Quando a informei, aceitou de primeira, sem reclamar. Isso porque treinava conosco há apenas poucos meses. Ah, e também prometi que correria o trecho junto com ela, para dar aquele apoio moral.

Não preciso nem dizer que até o dia da Volta à Ilha muito suor foi derramado nos treinos. Pra variar, dedicação e disciplina não faltaram. E era chegado o dia da corrida. Ela ansiosa pelo seu trecho, e eu na expectativa para acompanhá-la. Contudo, tinha que liderar a equipe, e no trecho anterior ao dela, eu e outros companheiros fomos apanhar a Rosely Marques (sua corrida merece outro capítulo a parte), que vinha terminando sua corrida. Mas tranquilo, como estávamos de carro, previa que daria tempo de chegar ao trecho em que a Lu começaria e acompanhá-la na sua jornada.

Como eu disse, daria. Daria se um dos nossos queridos amigos não ficasse com nojinho do banheiro químico e não ficasse meia hora na fila do banheiro de um restaurante próximo para um pit-stop. Resultado: Ao chegar no ponto de partida do trecho da Lu, ela já havia partido. Fomos então para o local onde ela chegaria. Nisso, minha consciência já pesava uma tonelada por não cumprir a promessa feita. Para aliviar um pouco, tive a seguinte ideia: – Vou correr o trecho dela ao contrário até encontrá-la. E assim foi feito.

Logo no início, me deparei com a entrada do morro, nesse caso para mim, pois para os corredores oficiais seria a saída. Bom, resolvi entrar, e não deu cinco minutos e já estava ofegante e muito cansado. Para minha felicidade, após subir, subir e subir mais um pouco, encontrei uma pessoa da organização que fornecia água aos corredores. Aí, tive a ideia de fazer uma pergunta: – Amigo, acabou a subida?

Pelo sorrisinho sarcástico que ele deu, nem precisava de resposta, mas ele fez questão de dizer que estava só começando. E o pior é que ele não estava mentindo. Bom, promessa é promessa, e fui ao encontro da Lu. E digo a vocês, era subida pra c… e dentro de uma trilha filha da mãe. Enquanto subia, vi um ou outro corredor descendo com sangue no rosto. E não é do ditado do “sangue nos olhos” não, era de tombo mesmo. Enfim, consegui chegar no topo da montanha, e a visão era belíssima, valia o esforço.

Mas e a Lu, onde estava? Confesso que comecei a me preocupar. Mas não durou muito tempo, porque quando eu menos esperava, eis que aparece a todo gás, ela, Luciane Mildenberger, correndo a mil (não consegui resistir). Rapaz, não foi fácil acompanhar essa mulher na descida, não. Foi num gás de impressionar (eu estava era com medo de tropeçar e cair). Deixou muito marmanjo para trás. Nesse momento, minha consciência ficou leve, e minha preocupação virou apenas orgulho, por ter uma aluna tão espontânea, dedicada e que faz tão bem a nosso grupo de corrida.

* Henrique Arrais é personal trainer, treinador e corredor da equipe SEFAZ RUNNERS