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(11/08/2014) Time de Cuiabá supera dificuldade e faz modalidade crescer

Por: Lislaine dos Anjos

Popular nos Estados Unidos, o futebol americano tem conquistado, aos poucos, o público cuiabano, que tem comparecido fielmente ao Estádio Eurico Gaspar Dutra, o "Dutrinha", toda a vez em que o bicampeão brasileiro (2010 e 2012), Cuiabá Arsenal, pisa no gramado – seja em jogos oficiais ou amistosos.

Atualmente, o esporte conta com um público ainda modesto na Capital, em média 1,5 mil torcedores por partida – o que, segundo o presidente e fundador do clube cuiabano, Orlando Ferreira Junior, 42, já é maior do que o que pode ser encontrado em outras cidades onde o futebol americano também é praticado.

Mesmo com público pequeno, o time tem grandes sonhos. Apesar das dificuldades no caminho, o clube espera contar, em um futuro próximo, com um Centro de Treinamento (CT) próprio e reunir um público expressivo na Arena Pantanal – pelo menos 20 mil pessoas – e consolidar suas categorias de base.

“Queremos jogar na Arena, mas não queremos que isso seja uma ajuda para a gente. Queremos montar um evento que caiba na arena. Um jogo normal nosso, hoje, ainda não tem capacidade para colocar um publico mínimo naquele estádio”, afirmou.

Segundo Orlando, ambição não é um problema.

A prova é que o time, em menos de 10 anos de história, conquistou dois títulos nacionais, já “exportou” jogadores para fora do país e possui atletas na Seleção Brasileira, bem como já foi notícia até na imprensa internacional.

E o time fez tudo isso sem contar com um CT ou um local fixo para preparação, sem um orçamento grandioso e sem remuneração aos atletas, que praticamente “bancam” seus equipamentos e preparação física.

Apoio da torcida

De acordo com o presidente, o principal impulso para o clube vem dos torcedores, com quem os jogadores mantêm uma relação estreita desde 2010, ano em que conquistaram o primeiro título nacional – e que explica, também, o crescimento do esporte na Capital.

 

“Um pouco antes de conquistarmos o título nacional, passamos a focar em como criar uma base de fãs. Passamos a nos preocupar com a nossa presença nas redes sociais, com os eventos dos jogos em si, com o conforto que o torcedor iria encontrar, no relacionamento com a imprensa”, disse.

Atualmente, a página do Cuiabá Arsenal no Facebook conta com mais de 20 mil fãs. O clube faz questão de manter o conteúdo sempre atualizado nessa e nas demais redes sociais e faz, literalmente “de tudo”, para manter cativa a atenção dos torcedores.

“Hoje, os nossos jogos não se resumem à partida. Temos um mascote, fazemos brincadeiras com a torcida, temos espaço para as crianças”, afirmou Orlando.

Um exemplo da dedicação do grupo aos fãs é o vídeo produzido pelo time em agosto de 2013, que tinha por objetivo convocar a torcida para comparecer ao jogo contra o Brasil Devilz. 

Na ocasião, os jogadores dançaram a coreografia original da música “O Show das Poderosas” da cantora Anita e o caso teve repercussão nacional. 

Hoje, o vídeo possui mais de 287,7 mil visualizações no Youtube.

Tanta preocupação tem dado retorno, com cada vez mais pessoas interessadas em conhecer o esporte e comparecer ao estádio.

A acadêmica de Educação Física, Mellina Lopes, 29, acompanha o Cuiabá Arsenal há cerca de três anos e raramente perde uma partida do clube na Capital.

Ela, que sempre gostou de assistir ao esporte pela televisão – principalmente em filmes e seriados –, afirma que a atenção dispensada pelo time aos torcedores foi algo que a cativou desde o início.

“A relação que o Cuiabá Arsenal tem com a torcida faz você gostar cada vez mais do esporte, do time. Cada jogo é uma grande festa e vai muita família, porque não tem briga, não tem algazarra. Até porque, uma das regras do jogo é que, se a torcida da casa xingar o juiz ou os times, se houver brigar, o time da casa perde pontos. Ninguém quer prejudicar seu time”, afirmou.

O preço do ingresso de cada evento, também é um diferencial, segundo a estudante. A média de preço, por jogo, é de R$ 20.

“É muito mais barato que um jogo comum, com uma estrutura que faz o torcedor gostar de estar ali. Você não paga R$ 20 para assistir a um bom jogo de futebol comum do Campeonato Brasileiro”, comparou.

A torcedora reconhece que o jogo é um pouco mais complicado de ser compreendido do que o futebol comum, mas que isso não é um empecilho para quem quiser acompanhar uma partida pela primeira vez no estádio.

“O locutor faz questão de explicar a partida no estádio, a razão de cada lance ou falta.”, disse.

Início do clube

Tudo começou como uma brincadeira. O Cuiabá Arsenal é o pioneiro no esporte em Mato Grosso e surgiu ao acaso, em 2006, após uma viagem feita por Orlando aos Estados Unidos. 
“Em 2002, visitei os Estados Unidos e trouxe comigo uma bola de futebol americano como um souvenir. Brincando com os amigos, começamos a tentar arremessar, de forma amadora. O grupo foi aumentando e, em 2006, percebemos que tínhamos gente suficiente para montar um time”, contou Orlando.

Segundo o capitão do time – que também joga na Seleção Brasileira de Futebol Americano –, Igor Mota, 28, antes da fundação do time, as brincadeiras ocorriam no campo de futebol da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

“O que sabíamos era que a bola tinha que sair do chão por baixo da perna de um cara, e o outro cara tinha que correr. Quando o time foi fundado, começamos a estudar cada um por si, com a ajuda da internet”, recordou.

No início a preocupação era apenas em conseguir mais jogadores, uniformes, equipamentos de proteção, treinador, locais para praticar e montar a comissão técnica.

Segundo Igor, quando decidiram se profissionalizar, a meta se tornou ser o melhor time de futebol americano do país.

“Conseguimos fazer bastante intercâmbio com jogadores vindos de fora, temos bastante gente que foi para os EUA jogar e que voltou para trazer conhecimento para o time”, afirmou.

Igor defende, ainda, que é necessário quebrar o preconceito que algumas pessoas ainda sentem em relação ao esporte, por achá-lo violento.

“Tem gente que já tem uma barreira porque não é um esporte do Brasil. Mas eu definiria esse esporte com três palavras-chave: inteligência, tática e disciplina. A aparência é de um esporte muito brutal, parece pancadaria. Mas quando você começa a entender o esporte, você vê que a força física fica em segundo plano. Se você tiver tática, você vence a força”, disse.

Dificuldades

Hoje, o Cuiabá Arsenal conta com 80 jogadores na equipe adulta e investe na formação de novos jogadores, com uma escolinha de futebol americano em uma modalidade que se pode jogar sem os equipamentos de proteção, que conta com 50 jogadores, além de uma equipe sub-19, com 30 jogadores.

Apesar do interesse pelo esporte ter aumentado, a equipe encontra dificuldades para encontrar um campo sempre disponível para os treinos da equipe adulta, que acontecem quatro vezes por semana - na maioria das vezes no Sesi Clube Cristo Rei, em Várzea Grande, ou no campo do bairro Areão, em Cuiabá.

“Quando o time começou, treinávamos na UFMT, mas tivemos de mudar para a construção do COT da UFMT”, disse Orlando.

Segundo o capitão do time, mesmo sem campo disponível, a equipe não fica sem treinar. 

“Um campo de futebol é o suficiente par a gente treinar. Mas são poucos aqueles que têm iluminação boa, por exemplo. Aqueles que têm gramado bom são privados. Os miniestádios não estão disponíveis. Já treinamos em praças, em quadras... vai onde tiver. Independente do espaço, a gente dá um jeito de adaptar”, completou Igor.

Outra dificuldade permanente é a financeira, segundo o presidente do time. Isso porque mais de 50% da verba de custeio das despesas do Cuiabá sai do bolso da própria diretoria do clube e ainda são poucas as empresas dispostas a investir – e patrocinar – o esporte em Mato Grosso.

“Os jogadores não são remunerados e arcam com despesa de academia, equipamento, uniforme. O curioso é que sai até barato do que o patrocínio de um time de futebol profissional. O nosso orçamento anual varia de R$ 180 mil a R$ 200 mil”, disse. 

Próximos jogos

Quem quiser ver o time do Cuiabá Arsenal em campo terá mais duas chances, ainda este ano.

Uma no dia 23 de agosto, quando o time faz um amistoso com um clube de Rondonópolis, para manter o ritmo para o Campeonato Brasileiro.

A segunda oportunidade será na partida válida pelo torneio nacional, no dia 25 de outubro, quando o Cuiabá enfrente o São Paulo Storm, no Dutrinha.

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